Especial
27/03/2015 09:13 (atualizado em 27/03/2015 09:28)

Pais que matam intencionalmente os filhos: Como analisar? Nesta edição do Jornal Gazeta Catarinense, a pesquisa da acadêmica Ana Paula de Oliveira, 22 anos, natural de Maravilha, ganha espaço ao dialogar com um tema considerado polêmico e impactante, intitulado: “O Lado Obscuro da Paternidade: Pais que Intencionalmente Matam Seus Filhos”.

Mesmo com tantos problemas sociais, culturais e econômicos existentes na sociedade hoje, ainda há a resistência de um espaço idealizado, conclamado como ‘quase’ perfeito ou movido pelo pensamento de uma civilização do amor, onde, respectivamente, nesta sociedade, se prevê a troca incondicional do afeto, da união entre os indivíduos. No entanto, esse paradigma se quebra surpreendentemente quando situações de extrema violência ou morte aparecem, especialmente no vínculo familiar. 
Nesta edição do Jornal Gazeta Catarinense, a pesquisa da acadêmica Ana Paula de Oliveira, 22 anos, natural de Maravilha, ganha espaço ao dialogar com um tema considerado polêmico e impactante, intitulado: O Lado Obscuro da Paternidade: Pais que Intencionalmente Matam Seus Filhos”, o qual, foi merecedor do Prêmio Silvia Lane, da Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP), um dos mais importantes prêmios para a área da Psicologia. 
O trabalho da acadêmica foi selecionado entre as 10 melhores pesquisas de instituições de ensino superior do Brasil. Em seu contexto, Ana Paula traz presente um estudo de caso ocorrido no município de IraceminhaSC, há alguns anos, onde um pai teria matado intencionalmente três filhos, sendo um de um ano, outro de dois anos e meio e um de três anos de idade, além de um sobrinho, após atear fogo na residência onde as crianças encontravam-se sozinhas. Com base nisso, a reportagem traz para você leitor, uma abordagem de como esse tipo de crime, denominado filicídio, é visto na sociedade atual e quais fatores levam uma pessoa a cometer tal delito, seja ele contra um filho, ou também, contra outro ser humano não vinculado ao laço familiar.

ESTUDO DE CASO

Ana Paula realizou o trabalho de conclusão de curso (TCC), embasada na psicanálise. O assunto polêmico despertou atenção da estudante que após fazer diversas ligações nas penitenciárias da região, encontrou um caso específico para sua pesquisa. “Tive o auxílio de uma psicóloga que trabalhava na penitenciária onde realizei o trabalho, ela me repassou algumas orientações e pude fazer três entrevistas com o pai acusado de matar os filhos e o sobrinho, o qual foi condenado a 134 anos de prisão, sendo que durante o período de minha pesquisa, ele já havia cumprido nove anos”, conta. 
Estudante Ana Paula de Oliveira, recebeu o Prêmio Silvia Lane, um dos mais importantes para área da Psicologia
Para entender os motivos que levaram o pai a cometer o crime, Ana Paula buscou saber o contexto social vivenciado por ele antes da prisão. “A família possuía dificuldades financeiras, a mãe não trabalhava e ele fazia bicos. A família era constituída por muitos filhos e também por brigas constantes. Não há uma razão específica para explicar o caso, mas vários fatores. Talvez ele tenha tomado como norte modelos antigos de vivências para construir sua vida, fazendo uma transferência da vida de seus pais e experiências passadas para sua vida atual, de uma forma considerada não amorosa, e até mesmo perversa”. 
Embora o caso tenha chocado a sociedade na época, e existam poucos materiais para realizar esse tipo de pesquisa, Ana Paula enfatiza que casos como esse norteiam a sociedade desde os primórdios, porém, alguns estão em maior evidência segundo ela, quando referem-se a famílias com maior poder aquisitivo e que possuem ‘influências’ de destaque na sociedade, como o caso, do menino Bernardo Uglione Boldrini, 11 anos, encontrado morto em um matagal no Rio Grande do Sul, após ser assassinado com uma injeção letal pela madrasta. “A violência doméstica ou intrafamiliar contra crianças e adolescentes não é um fenômeno da contemporaneidade. Relatos de filicídios, de maus-tratos, de negligência, de abandonos, de abusos sexuais, são encontrados na mitologia Ocidental, em passagens bíblicas, em rituais de iniciação ou de passagem para a idade adulta, fazendo parte da história cultural da humanidade”, explica.

Sociedade determina  o comportamento dos indivíduos 
Segundo o psicólogo Moacir Francisco Pires, as relações sociais e culturais, são responsáveis por constituir a personalidade de uma pessoa, determinando todas as suas ações estabelecidas no mundo, expressas através de um comportamento amoroso ou inclusive, de perversidade extrema, dentro e fora do círculo familiar 
Muito mais antigo do que se acredita, o crime de filicídio, onde pais matam os filhos intencionalmente, faz parte de todo processo civilizatório da humanidade. Embora a sociedade apresente provas de que se está vivendo um processo de desenvolvimento da humanidade, segundo o psicólogo Moacir Francisco Pires, todos estão sujeitos às influências destas relações sociais e culturais, as quais são responsáveis pela construção da personalidade, que passa a determinar a atuação particular de cada sujeito neste mundo, definindo, assim, o seu comportamento amoroso ou, inclusive, de perversidade extrema. 
Pires sustenta sua compreensão da realidade na Psicologia Existencialista para abordar o fenômeno da morte ocasionada por um ser humano contra o outro. Segundo ele, suas causas são multideterminadas e sempre circunscritas no seu específico contexto histórico. As motivações e as causas da prática da morte, conforme o psicólogo, se encontram na história do sujeito que vive sob a influencia das relações sociais. 
Mesmo assim, ele compreende que a prática de um crime, aparece como expressão das relações sociais. Relações que na antiguidade eram vividas de forma ‘bruta’, porque a luta pela sobrevivência exigia maior empenho para sobreviver. Pires sinaliza que viviam mais os sujeitos habilidosos. “A bravura tinha que ser exercitada na disputa pelo território, pela água, pela comida, havendo muitos conflitos causadores de muita morte. A humanidade vai aperfeiçoando um processo civilizatório na medida em que se organiza em grupos, estabelecendo estruturas de relacionamento e convivência pautadas por regras coletivas, entretanto, os interesses particulares, a luta e a disputa pela sobrevivência permanecem na sociedade”, explica. 
Psicólogo, Moacir Francisco Pires 
Conforme o psicólogo, com a instauração da Sociedade Moderna, mediante a emergência do Capitalismo, a luta pela sobrevivência continua fazendo parte da história da humanidade. Apesar desta luta pela existência, o processo civilizatório segundo ele, tem avançado. “Apesar disto, constatamos entre nós aquilo que Karl Marx diz: “Nada do que é vivo permanece no ar”, ou seja, o homem moderno transforma tudo o que está vivo mediante a extração destas riquezas, da industrialização, da produção de alimentos e acumulação de excedentes, e nesse contexto, nem a vida humana permanece intacta, o próprio homem aparece como objeto desta transformação”, explica. 
De acordo com o psicólogo, uma sociedade que está fundada na competição e na acumulação, a qual em breve apenas 1% desta população estará concentrando 99% das riquezas, não pode ser considerada conforme ele, uma civilização pautada pela solidariedade e pelo amor. “Em meio a estas contradições reais, alguns se inserem de forma mais civilizada que outros, restando para a maioria condições precárias para sua existência.  Mesmo que o Brasil seja um país emergente, repleto de riquezas e recursos naturais, vivemos esta contradição: há pessoas que estão dignamente inseridas nas relações sociais , entretanto há muitos que não conseguem se inserir nas relações sociais de forma digna, os quais terão poucas oportunidades de estabelecer relações humanizadas com seus familiares devido à precária formação de vínculos emocionais, estando, consequentemente, mais sujeitos à agressividade no convívio intrafamiliar”.  
Alguém que mata uma pessoa, ou chega ao ato extremo de tirar a vida de seu próprioa, filhoa, só pode ser compreendido como um sujeito que não teve acesso a uma vida de qualidade, sugere o psicólogo. Da mesma forma, quando esse tipo de crime acontece em famílias de alto poder aquisitivo, Pires diz que a compreensão deste ato também pode ser encontrada nas relações sociais vividas historicamente. 
Segundo ele, há sintomas e sinais de morte espalhados por todo mundo. O ritmo de produção da sociedade moderna acusa para o Psicólogo, que ela está vivendo um processo de exaustão. “O ritmo frenético que o mercado de trabalho cobra de cada ser humano exige um enorme esforço civilizatório no dia a dia. Cada sujeito precisa acordar na manhã seguinte e resgatar seus princípios éticos para enfrentar estas contradições e conflitos diários, explica. 
Cada ser humano, conforme Pires, tem a sua compreensão historicamente adquirida e busca, de acordo com ele, estabelecer seu processo civilizatório de alguma forma. “Alguns mediante a educação procuram superar as contradições e conflitos através da prática da religiosidade, outros por meio da observação das leis ou mediante o trabalho.  Mesmo assim, cada criança que nasce, vai se inscrever e agir sob a perspectiva da sociedade da competição e vai lutar pela vida, mesmo que esta frenética disputa provoque a morte, seja a sua ou a do outro”, argumenta. 

Família: Um grupo de pertença
Segundo Pires, é possível compreender o porquê a morte ocorrida dentro do vínculo familiar se torna mais chocante na sociedade. Conforme o Psicólogo, o grupo familiar é um grupo considerado pela sociedade como sendo de ‘pertencimento’, de aconchego e ações de cuidado. Pires destaca que a sociedade estabelece hierarquias e diferenças dependendo do tipo da morte. Ele diz que se a morte for praticada dentro desse grupo de “pertencimento” ou como resultado do roubo de um celular, então, a morte vai causar comoção social. Mas se a morte for provocada a longo prazo, ocasionada por uma doença contraída no mercado de trabalho, ou ainda, decorrente da água contaminada da Cantareira ou  precipitada pelo stress que o profissional empreende para se inserir  e permanecer no mercado de trabalho, então, nestas circunstâncias, a morte é aceita segundo ele, de forma obstinada.
Entretanto, em todas as suas modalidades, Pires diz que a morte denuncia o limite do esforço civilizatório da humanidade e aponta para a responsabilidade coletiva. O psicólogo destaca a arrogância da sociedade em julgar alguém que mata outra pessoa independente do motivo. Enfatiza que os crimes cometidos contra o ser humano nas suas mais diferentes modalidades vão continuar acontecendo caso não haja uma mudança radical nesta sociedade fundada na competição e acumulação. “Difícil acreditar que possa ser considerada saudável esta sociedade fundada sob a competição, a qual só aprendeu a acumular riquezas sem se importar com a destruição da natureza, no caso, poluindo mananciais de água seja aqui entre nós ou na Cantareira, fazendo com que todos tenham que beber fezes, urina e metais pesados. Há sinais visíveis de esgotamento deste planeta. O futuro da sociedade moderna grita por socorro”.
Ainda conforme Pires, há alternativas que poderiam contribuir para romper com as relações determinadas historicamente as quais, de acordo com o psicólogo, têm gerado tantos conflitos e morte para a coletividade. Apesar disso, ele destaca que a humanidade continua sua luta pela sobrevivência. “O que podemos fazer para evitar o colapso desta sociedade, a qual em breve 1% acumulará 99% de toda a riqueza do planeta? É este o processo civilizatório que legaremos às futuras gerações? Há indicativos estruturais e políticos de que a melhora das condições de vida da humanidade não virá pela decisão daquele grupo formado por 1% de privilegiados! É preciso reverter esse processo e estabelecer novas relações. Para que isto seja possível, é necessário que a maioria se torne protagonista de sua história pessoal e coletiva, a fim de estabelecer uma sociedade fundada na participação cidadã, acima dos apelos consumistas”, finaliza.

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Fonte: Claudia Weinman

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