Saúde Pública
09/04/2015 16:43 (atualizado em 10/04/2015 09:57)

‘Falhas’ no sistema de saúde do município geram indignação e denúncias Mesmo sendo um direito garantido pela Constituição Federal de 1988 (CF88), a saúde tem sido mais uma vez tema de discussão em São Miguel do Oeste

Acesso à saúde pública e de qualidade é um direito garantido pela Constituição Federal 


Historicamente, sabe-se que o acesso à saúde pública e de qualidade é um direito garantido a todo cidadão que em algum momento de sua vida, necessitar receber atendimento médico. Quem garante este direito é o estado, assegurando pelo viés da Constituição Federal de 1988 (CF88), a plena participação do cidadão a este sistema. Segundo dispõe o artigo 196: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para a promoção, proteção e recuperação”. 
O não cumprimento deste direito, a falta de atenção com a saúde pública, o desrespeito com as pessoas que buscam o atendimento nas unidades básicas de saúde, fere essencialmente o direito do cidadão. E é sobre isso que a reportagem do Jornal Gazeta Catarinense vai falar nesta semana. Com base em diversas denúncias que chegaram até a redação, de pessoas que procuraram o primeiro atendimento nas unidades de saúde do município de São Miguel do Oeste, a reportagem irá apresentar nas entrevistas, o questionamento de quem viveu e vive as incertezas de não ser correspondido quando o assunto é o acesso ao primeiro atendimento, que deve acontecer na esfera municipal e guiar o paciente, conforme sua necessidade, ao tratamento futuro, seja ele de média ou até mesmo, alta complexidade. 
A primeira situação que revolta, e reúne questionamentos, é de que mesmo a Constituição Federal garantindo o direito a saúde, o que independe da classe social que o indivíduo está inserido, o tratamento considerado urgente, não é levado a sério pelos profissionais que atuam na área da saúde e não refletem atenção a casos de extrema urgência, que pode, com o passar do tempo, ocasionar uma evolução negativa no quadro clínico do paciente. E esta forma de negligenciar o primeiro atendimento, interfere na vida não apenas de uma pessoa, mas de famílias inteiras que esperam, nada além, de uma alternativa para salvar a vida de quem se ama. Essas palavras estão interligadas com a realidade da Dona de Casa, Ivonete Rodrigues da Silva, de 39 anos que reside no bairro Estrela, em São Miguel do Oeste.   
Em 2013, Ivonete descobriu por meio do exame de mamografia que estava com câncer de mama do tipo invasor, o qual, necessita de um tratamento urgente, pela sua complexidade e capacidade de expansão rápida. Ela conta que ao buscar o primeiro atendimento na unidade de saúde do bairro, recebeu da médica responsável na época, uma requisição para efetuar os exames. No entanto, ela indigna-se ao relatar que as requisições foram ‘trocadas’ quatro vezes na unidade central de saúde. Este “vai e vem” de informações e distorções de exames, foi resolvido depois de seis meses. “Fiquei mais de meio ano nessa função, tanto que as cinco quimioterapias feitas depois desse período não adiantaram e a minha doença evoluiu. Vou precisar agora, fazer radioterapia. Se o encaminhamento tivesse sido feito corretamente, quem sabe hoje, eu pudesse estar bem melhor”, indigna-se. 
Ivonete conta que além da demora no encaminhamento de exames e troca de requisições, existe a falta de respeito de motoristas que levam os pacientes até Chapecó, onde ela e um grupo de pessoas, eram conduzidas para efetuar os tratamentos específicos de cada um. “Eu sempre saio muito mal das quimioterapias, sinto fraqueza, tontura, dor de cabeça e muita dor nas pernas. Mas preciso ter paciência para aguardar as outras pessoas para retornarmos juntas á São Miguel do Oeste. Durante esse tempo de espera, já ouvimos ‘xingões’ por parte do motorista, que não compreende a nossa situação, manda caminhar rápido, e não se importa com a nossa dor”, reclama.  
Nas próximas sessões de radioterapia, que devem acontecer cinco vezes por semana, Ivonete diz que pretende fazer de tudo para que alguém da família a leve de carro, mesmo que para isso, precise custear os gastos sozinha. Ela tem cinco filhos, e quatro são menores de idade, sendo que a filha mais nova tem apenas dois anos. Por esse motivo, Ivonete diz que deseja voltar todos os dias para casa, a fim de ficar mais tempo com os filhos. 
Segundo ela, a família já tem pensado alternativas para ajudar nos gastos e fará uma rifa e um jantar beneficente neste sábado, dia 11. Ivonete conta que atualmente quem sustenta a família é o marido, já que ela não recebe nenhum tipo de auxílio. O motivo, foi que em 2011, a casa onde ela e os filhos moravam pegou fogo, e todos ficaram apenas com a roupa do corpo. “Deixei de contribuir com INSS por um período e hoje tenho dificuldade de conseguir algum tipo de auxílio. O meu pedido é de que as pessoas que trabalham com a saúde pública olhem não apenas a minha situação mas de todo mundo. Um erro no início pode comprometer uma vida. Hoje, eu só quero ficar bem para cuidar dos meus filhos, para ver eles crescerem com saúde”, espera. 

Na sessão realizada na noite de ontem, quinta-feira, dia 09, e na sessão anterior, na terça-feira, dia 07, na Câmara de Vereadores de São Miguel do Oeste, a vereadora Maria Tereza Capra, expôs alguns casos de denúncias no atendimento básico de saúde. Ela aproveitou o momento para encaminhar um requerimento de informação ao Prefeito João Carlos Valar, para que preste esclarecimento sobre as consultas com especialistas, medicamentos, regulação e outros.
João Elegar Glanert, 62 anos, aposentado, precisou amputar um dos membros depois de ficar seis meses sem atendimento na saúde  
Entre os casos, a vereadora citou a falta de medicamentos e fraldas geriátricas que tem ocorrido constantemente, segundo as denúncias recebidas por ela. Nos últimos meses, Maria Tereza conta também que foi procurada por algumas famílias onde, efetuou visitas para compreender a situação que de acordo com ela, não se refere a um caso específico, mas provém, de várias pessoas no município.  Entre os casos mais extremos, está o de João Elegar Glanert, 62 anos, aposentado, que há pouco mais de uma semana, precisou fazer a cirurgia de amputação de uma das pernas. O motivo, segundo ele, foi a demora e a negação de acesso à saúde pública de qualidade. 
Glanert conta que buscou a primeira ajuda na unidade de saúde em 2012. O problema de Osteomielite foi se agravando com o passar dos anos e conforme ele, até mesmo o prefeito João Valar, secretário de saúde e outras pessoas influentes foram procuradas devido a urgência do caso, mas muitos, segundo ele, disseram que o problema não era urgente. “Cheguei a ficar seis meses sem atendimento. Estava debilitado e não conseguia me locomover sozinho. Eu tirava pedaços de ossos da perna. Foi quando uma pessoa que não possui influência nenhuma com a política no município resolveu me ajudar e me encaminhou para o médico que enfim, me deu o atendimento necessário. Precisei amputar uma das pernas”, contextualiza. 
Glanert diz que embora tenha sido acolhido por muitos profissionais da saúde, que se esforçaram para ajudá-lo, o sistema de saúde do município precisa ser repensado. “Sabemos que muitas vezes somos ‘enrolados’. Precisamos aqui no nosso município, uma pessoa competente dentro da secretaria de saúde”, argumenta. 
Além do caso de Glanert, que resultou na amputação de um dos membros, Maria Tereza falou ainda sobre a má orientação que é repassada aos pacientes que procuram a unidade de atendimento na estratégia de saúde do bairro e também na unidade central. “As pessoas saem da unidade de saúde do bairro com a requisição do exame laboratorial. No entanto, as informações são insuficientes para ele encaminhar e chegar a fazer este exame. Com isso, muitos pacientes desistem do sistema de saúde e a secretaria não faz nada para manter as pessoas vinculadas ao SUS. É muita desculpa. Temos aqui um atendimento que exclui o paciente do sistema e quem não tem dinheiro para realizar uma consulta particular, também acaba ficando sem alternativa”, destaca. 
Segundo o aposentado, profissionais da saúde entenderam que o caso não era urgente
Maria Tereza aponta ainda a demora que existe na avaliação da necessidade do paciente em realizar uma consulta com especialista, a chamada regulação que segundo ela, é feita para analisar os casos de maior urgência. “O problema é que o sistema de regulação não pode demorar nove meses para avaliar o caso do paciente. São nove meses e depois mais todo o tempo que ele vai ter que aguardar a consulta no Hospital Regional. O paciente precisa receber um parecer e a partir disso, a procura por um atendimento particular precisa ser uma opção e não uma contingência”, enfatiza. 
A vereadora  cita também, casos de denúncias em que médicos não prestam atenção nos pacientes durante o atendimento por estarem acessando a rede social facebook. “Recebi reclamações onde médicos que estariam atendendo na Unidade de Pronto Atendimento - UPA 24h, não atendiam com atenção o paciente por estarem envolvidos com o facebook. E além disso, indicam medicamentos que não podem ser encontrados na estratégia de saúde ou unidade central por justamente, não terem o conhecimento sobre o que está disponível nas unidades”, questiona.

Secretário afirma desconhecer críticas ao sistema de saúde no município

Em contato com o secretário de Saúde do município, Airton José Macarini Segundo, este disse não saber de todas as reclamações apontadas nesta matéria. Macarini enfatizou que as reclamações podem ser dirigidas à Secretaria de Saúde para resolução dos fatos. Além disso, negou a falta de medicamento nas unidades de saúde e disse ainda que esse problema aconteceu apenas durante a greve dos caminhoneiros. 
Sobre os medicamentos receitados pelos médicos da UPA, o secretário enfatizou que os profissionais preconizam a legislação municipal em relação aos remédios distribuídos gratuitamente. “Se o médico entender que o paciente precisa de outra medicação, isso é ato médico, não condiz com a gestão da secretaria. É ele quem vai decidir o melhor tratamento para o paciente”, explica.
Ao apontar as qualidades que o sistema de saúde tem representado para São Miguel do Oeste, Macarini disse que atualmente cada estratégia de saúde dispõe de 10 consultas agendadas por turno mais quatro de emergência, além da Upa com livre demanda. Além disso, ele enfatizou que no ano de 2014, foram investidos R$ 18, 5 milhões entre a esfera municipal, estadual e federal na saúde, o que também, de acordo com ele, representa 23% da arrecadação no município, sendo que, o Ministério da Saúde preconiza que seja no mínimo 13%. 
Com base nestes dados, a reportagem do jornal Gazeta Catarinense questionou o porquê, mesmo com tantos pontos positivos citados pelo secretário, ainda existam tantas reclamações relacionadas ao sistema de saúde em São Miguel do Oeste. Macarini disse que um dos motivos é de que a culpa está em quem procura atendimento sem precisar. “As pessoas reclamam porque querem usar a saúde a hora que querem e não quando precisam. Sempre falo na mídia que não é assim que funciona. Não é porque eu pago imposto que tenho direito de usar, por causa disso, muitos tiram a vaga de quem precisa. As pessoas hoje procuram soluções em remédios. Acham que só têm direitos e não deveres”, finaliza.

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Fonte: Claudia Weinman

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