Jaime Capra
17/04/2015 08:46

Edição de sexta-feira, 14 de Abril de 2015

MANIFESTAÇÕES
Desta vez os manifestantes, auxiliados pela mídia reacionária, fizeram a gentileza de mostrar a cara. Para começo de conversa, o contingente foi bem mais reduzido que o propalado, inclusive por autoridades que outrora tentavam de todas as maneiras reduzir o espaço dos manifestantes. 
Não se tratava de protesto contra a corrupção. O eco maior foi Fora PT, mais forte que o Fora Dilma. 
O ápice do teatrinho de quinta categoria foi quando a turba cantava: “a nossa bandeira jamais será vermelha”. Os cartazes pediam o impeachment, atacavam o comunismo, reclamavam intervenção militar e condenavam a virada à esquerda do país. Tudo copiado da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de 1964, que lutava contra o perigo vermelho. Pediam-se todas as ações ditatoriais e antidemocráticas perfeitamente exeqüíveis por volta da metade do Século passado. Só faltou ressuscitarem Carlos Lacerda e seus asseclas. 
Na verdade, esperavam-se manifestações contra a corrupção do PT, do PP, do PMDB, do PSDB e de todos os partidos. Esperava-se também manifestações quanto a Operação Zelotes, sonegação de impostos, contas secretas de políticos, celebridades e empresários no HSBC da Suíça. Pensou-se que haveria protestos contra o ajuste fiscal, as terceirizações e a retirada de garantias trabalhistas. Pensou-se que os deputados citados na lista de Janot, seriam alvos de críticas, chacotas e cobranças. Nada disso aconteceu. A turba descontrolada e insuflada pela mídia reacionária comportou-se como o “Estouro da Boiada”, descrito por Euclides da Cunha (traços): “De súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se, trançam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, e inclinam-se, embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação no solo; e a boiada estoura... A boiada arranca!”

A BANCADA BBB
A Bancada do Boi, Bíblia e Bala do Congresso Nacional, trabalha firme no projeto para reduzir a maioridade penal. 
Após algumas sessões marcadas por protestos, bate-bocas e troca de acusações, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou a proposta de emenda à Constituição que reduz de 18 para 16 anos a maioridade penal no Brasil. O fato chama atenção porque 60% dos deputados a favor da emenda estão sendo investigados por cometimento de crimes. 
A responsabilidade criminal a partir dos 18 anos, segundo juristas de renome, é cláusula pétrea da Constituição. Mesmo assim a proposta foi reavivada pela chamada Bancada da Bala, que agregou o apoio de parlamentares evangélicos e ruralistas. PSDB, DEM, PSD, PRB, Solidariedade, PSC e parcelas do PMDB asseguraram a vitória do grupo. 

CLASSIFICAÇÃO
O Brasil ocupa o quarto lugar na lista dos sonegadores que são clientes do HSBC que remetem dinheiro sonegado para contas secretas na Suíça. 
Um funcionário do HSBC que vazou as informações, afirmou que o banco criou um sistema para enriquecimento à custa dos brasileiros, promovendo evasão fiscal e lavagem de dinheiro. 
Um leitor da Folha de São Paulo declarou ao jornal em 17 de fevereiro último que a baixa repercussão do escândalo financeiro na imprensa brasileira se deve ao fato de que a imprensa brasileira ao invés de combater a corrupção, é parte dela. 
O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (Icij – sigla em inglês) teve acesso a mais de 100 mil clientes de mais de 200 países. Estes cidadãos do mundo guardaram suas merrecas de 100 bilhões de dólares nas contas secretas do HSBC na Suíça. 
O Brasil participou com quase 9.000 “poupadores”, obtendo um honroso quarto lugar para os potenciais sonegadores.  
Imagina-se que o tal leitor tenha utilizado a palavra corrupção em seu sentido amplo, ao atribuir essa prática à imprensa do País do Carnaval. Assim, devem ser interpretadas como uma denúncia de omissão e cumplicidade da grande mídia com as camadas sociais que costumam dançar ao som de picaretagens financeiras e no ritmo do descumprimento de suas obrigações com o fisco. 
Os picaretas financeiros são da mesma turma que quer o fim do Brasil. Enquanto fazem suas picaretagens e corrupções do tipo perpetrado pela RBS contra a Receita Federal, incentivam gritos de “pega ladrão” diante das patifarias de seus iguais. Com tamanha falta de vergonha e de princípios, nunca é demais relembrar a frase de Stanislaw Ponte Preta: “Restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”.

INDIGNAÇÃO
Não é bom para o Brasil gritar contra os corruptos e não se importar com os sonegadores.
Uma ladroeira de 19 bilhões de reais, descoberta e investigada pela Operação Zelotes da Polícia Federal, recebe menos atenção da mídia que uma extração da mega sena. 
Embora esta montanha de dinheiro represente quatro vezes o valor desviado na Petrobrás, não tem produzido a mesma indignação mostrada em outros casos de corrupção. 
Este achado deveria ser o maior escândalo de corrupção da história, se a sonegação fosse vista pelas elites econômicas e por grande parcela da sociedade como algo escandaloso. Mas não é. Não é e não convém que seja, embora implique em crime de roubo de dinheiro público, que tanto quanto os desvios na Petrobrás serviriam para melhorar a saúde, educação e saneamento. 
Isso ocorre porque o crime de corrupção é atribuído ao servidor público, enquanto que a sonegação é disseminada entre os segmentos econômicos mais ricos, abarcando também os mentores dos impostômetros espalhados por todo o País. Por essas e por outras que as instalações deveriam contemplar também os não menos famosos sonegômetros.
A impressão de que a sonegação é corrupção menor deriva do grande privilégio que gozam os sonegadores, cujos crimes, mesmo após denunciados, são passíveis de extinção da punibilidade, caso o acusado opte por liquidar ou parcelar sua dívida. Não somente a dívida do contribuinte comum, mas também a dos grandes figurões do setor privado pode ser paga em suaves prestações, quando não protelada anos a fio. Ou seja, sonegar no Brasil não é perigoso, principalmente para as grandes corporações que, aliás, desfrutam de boa reputação e são geralmente apontadas como exemplo de eficiência e boa gestão.
Se os movimentos das ruas pretendem combater a corrupção, por que não se revoltam contra a sonegação? Não se poderia esperar que exigissem combate mais rígido à sonegação e ao sonegador? Será que são condescendentes porque ao pedir punição para a sonegação seriam traídos pelas próprias vozes? 
O grande mal desses dias não é a corrupção. O pior dos males é a indignação seletiva e hipócrita demonstrada por setores golpistas da sociedade.

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