Dia dos Namorados
12/06/2015 09:52

O que mudou do namoro das cartas para as mensagens em smartphones? Para este dia dos namorados, a reportagem do Jornal Gazeta Catarinense, preparou uma matéria especial sobre as ‘faces’ dos relacionamentos estabelecidos em períodos diferentes da história. Desde o tempo em que cartas eram escritas até a atualidade, com a predominância das redes sociais


Escrever uma carta, dedicar tempo a pensar em versos, em frases que encantam, ou mesmo, de maneira simples tentar traduzir sentimentos em palavras de amor, parece distante para muitas pessoas que na correria dos dias, preferem homenagear o companheiroa enviando um presente ou um cartão com frases pré-elaboradas. 
Isso acontece muito na atualidade porém, a recordação de cartas elaboradas manualmente está bastante presente na lembrança de casais que preservam viva a memória de como eram estabelecidas as relações entre namoradosas em um período da história onde quase tudo era proibido, especialmente para as mulheres que vivenciaram por muito tempo, a experiência do machismo. 
Nesta edição do Jornal Gazeta Catarinense, que contempla também a celebração do dia dos namorados neste dia 12 de junho, vamos trazer para você  leitor um fragmento da história de dois casais, um deles, contando a experiência de como acontecia o namoro há mais de 20 anos, e outro, que na atualidade, enfrenta os desafios da tecnologia que de um lado aproxima os casais e de outro, distancia a relação de confiança entre duas pessoas. Destacamos também nesta matéria, uma análise histórica sobre as tendências comportamentais dentro de um relacionamento a dois.

Para quem acredita que hoje em dia está difícil encontrar uma namorada ou um namorado e que se comunicar com as pessoas é difícil, falta tempo, e outras desculpas mais, imagine para quem iniciou o namoro conhecendo-se dentro de uma igreja e não tendo a permissão da família para frequentar bailes ou festas sem a presença dos familiares. Esse é apenas o começo da história do casal de agricultores Etelvina Gianisséla Giongo, aposentada, 65 anos, e Adelino Giongo, aposentado, 70 anos, que residem no interior do município de Paraíso. 
A exemplo da história da grande maioria das mulheres, Etelvina sempre teve dificuldades em sair de casa para frequentar bailes. Esse tipo de festa não era permitida pelo pai. Porém, a igreja, local onde toda família cultuava e costumava frequentar, foi o berço da união que neste dia 12 de junho, completa 23 anos. Na Igreja São Pio X, em Paraíso, na data do dia 08 de setembro de 1991, Etelvina teve a primeira chance de conhecer Adelino. Uma amiga de Etelvina ajudou o casal. “Nós dois nos conhecemos sem eu saber o que era baile, meu pai não permitia. Então foi na igreja que a gente se encontrou”, conta Etelvina. 
Adelino complementa ainda que uma amiga de Etelvina já havia perguntado a ela se tinha interesse de conhecer um rapaz para casar. “O pai da Etelvina estava internado no hospital e um amiga que estava lá pediu para a Etelvina se tinha interesse em conhecer um homem ou casar, pois havia um homem interessado, no caso, eu. Então fui até sua casa para conhecer a família”, recorda Adelino. Etelvina tinha 40 anos quando conheceu Adelino, 46 anos. 
Os dois namoraram durante dois anos, até casarem-se na igreja Matriz de Guaraciaba. “Minha família aceitou facilmente a nossa relação, mas, antes de casar, tínhamos bastante dificuldade de nos comunicar. “Comunicava-se por cartas, havia dificuldade porém era o único meio, pois não havia telefone ou algum outro meio de comunicação. Quando a saudade apertava, escrevíamos cartas”, relembra Etelvina. 
Ao analisar o início do relacionamento entre ela e Adelino, Etelvina diz que antigamente, os ‘namorados’ tinham mais respeito um com o outro. “Antigamente os namoros eram mais sérios pois os namorados se respeitavam mais. Os namoros de hoje são muito liberados ou livres”, avalia. 
Etelvina e Adelino tiveram um filho nestes 23 anos de casados. Segundo ela, o dia dos namorados é uma data muito importante na história do casal. “O dia dos namorados é uma lembrança eterna, pois foi o dia de nosso noivado. Marca a nossa história de compromisso, de respeito de um pelo outro”, finaliza.

As facilidades do namoro na era da tecnologia

Duas histórias. Um sentimento: amor. Realidades distintas. Enquanto Etelvina e Adelino enfrentavam a dificuldade de comunicarem-se por meio de cartas elaboradas com paciência e cuidado, a história do casal Andressa Campana, 21 anos, e Jeferson Reck, 21 anos de Descanso, remete a outra realidade. Ela é auxiliar administrativo e ele atua como Técnico em Agropecuária. Andressa é estudante de história, e cursa faculdade na Universidade Federal de Chapecó (UFFS). Ela e Jeferson se comunicam durante a semana via telefone e Skype, e ainda utilizam o Facebook e o WhatsApp para trocarem vídeos e fotos, meios um tanto quanto mais fáceis e rápidos para se comunicarem. 
Para Jeferson, viver um amor intenso depende essencialmente de como os casais aproveitam cada momento em que estão juntos
A história de Andressa e Jeferson iniciou no ano de 2013, em Descanso. Andressa conversava com um amigo de Jeferson em frente ao Banco do Brasil, local onde tudo começou. “Era sábado. Eu estava esperando ele pra irmos trabalhar e ela estava de passagem para ir ao médico. Eles permaneceram um certo tempo conversando e eu esperando ele. Quando me aproximei mais com a moto, ela me viu e eu nem tirei o capacete, ela deu um abraço apertado no meu amigo, e confesso que fiquei com inveja, nos cumprimentamos e foi só isso. Já na Segunda-feira ela me procurou no Facebook, e pediu se eu era o menino da moto, respondi que sim e a conversa foi fluindo”, conta. 
Jeferson conta que tudo aconteceu de maneira muito rápida. “Já éramos amigos no Facebook, mas nunca tínhamos conversado. Até hoje não sabemos como éramos amigos na rede social”, comenta. 
Andressa diz que, mesmo conhecendo Jeferson através de uma rede social, procurou ‘investigar’. “O jeito dele me encantou. Procurei saber com minhas amigas, quem era aquele moço, o que fazia, e coisas do tipo de quando nos interessamos por alguém. Pois, como faz tempo que sai de Descanso, não conhecia muitas pessoas. Em pouco tempo já estávamos saindo juntos e conhecendo os pais de cada um. Marcamos de fazer um risoto na minha casa e quem iria cozinhar era o Jeferson, que por sinal, não tinha base nenhuma para cozinhar. Ele pegou a receita com a mãe dele e cozinhava olhando no papelzinho, mas com cuidado pra ninguém olhar, e para falar a verdade ficou uma delícia. Depois disso, começamos a namorar e foi ótimo”, relembra Andressa.

Para o casal Andressa e Jeferson, os meios de comunicação são fundamentais para suprir com a distância, já que, Andressa retorna apenas nas sextas-feiras para Descanso. “Às vezes o ciúme toma conta, nunca chegamos a brigar, discutir sobre isso, só nos alertamos sobre o que cada um gosta ou não nas redes sociais por exemplo”, justifica Jeferson.
Para ele, o grande desafio em lidar com os meios de comunicação na atualidade, é fazer prevalecer a cumplicidade. “Creio que é buscar sempre entender um ao outro, pois como a Andressa estuda, ela precisa conciliar o trabalho, a faculdade e a nossa relação, precisa de tempo pra isso, e ela se sai muito bem diga-se de passagem. Eu até tento ajudar ela, me esforço, mas fica meio complicado, não gosto muito de estudar”, revela.
Jeferson argumenta ainda sobre a necessidade de utilizar a tecnologia para aproximar as pessoas e não para afastá-las. “As tentações estão por toda a parte, e cabe cada um escolher. A tecnologia ajuda, os áudios pelo ‘Whats’ de ‘Te amo’, ‘Se cuida’, ‘Dorme Bem’, fazem com que a gente se sinta mais amado, matando um pouco, essa saudade causada pela distância”, enfatiza. 
Ao fazer uma comparação com a forma de como os casais se relacionavam há alguns anos e como se relacionam hoje, Jeferson salienta que viver um amor intenso depende essencialmente de como os casais aproveitam cada momento em que estão juntos. “Hoje em dia é tudo liberado, não temos mais tanto o gostinho de experimentar o “proibido”, diferentemente de como acontecia antigamente. Mas as vezes, a saudade, o tempo distante, faz com que quando a gente se vê, tornemos o momento mais intenso. A gente acaba aproveitando mais para ficar juntos e partilhar nossas vidas. Ao escutar nossos pais comentarem, percebemos que viveram algo a mais que a nossa geração. E não sei dizer se é porque era mais difícil ficarem juntos, mas acredito que cada momento valorizado pela gente hoje, resulta num grande amor com certeza”, enfatiza.

Historiador Edinaldo Enoque
Afirmar que uma relação consolidada há alguns anos já foi mais intensa que outras que surgiram depois, ou que o namoro, o casamento era levado mais a sério antigamente, pode não ser a maneira mais correta de se analisar o assunto. Segundo o historiador Edinaldo Enoque, não há como generalizar e dizer que no passado as relações se davam prioritariamente de um modo ou de outro, segundo ele, elas seguiam em sua maioria tendências morais e de comportamentos socialmente aceitos, como exemplo, o próprio machismo, mas, conforme ele, isso não significa que outros modos de comportamento não existissem. 
Enoque explica que há diversas tendências comportamentais. “Existem aquelas que chamam mais atenção pelo modo rotineiro com que observamos e geralmente é esse modo que acaba se destacando dos demais nos fazendo generalizar. O pensador Zygmunt Bauman dizia que ‘antigamente’, ou seja, na fase que ele denomina de sólida (período que de modo genérico se inicia com a modernidade e vai até logo após a Segunda Guerra Mundial), os relacionamentos eram alicerçados em grande medida por valores morais, mais especificamente valores religiosos. Uma dessas características era a predominância do ‘nós’ em detrimento do ‘eu’, ou seja, os relacionamentos eram marcados pela abdicação da individualidade do sujeito em prol de um todo relacional”, complementa.
Enoque salienta que isso era dado de modo a compreender a mentalidade coletiva de grande parcela da população e era difundida na escola, nas famílias e nas Igrejas. “Hoje, mais uma vez conforme Bauman, a modernidade se liquefez, e com ela os relacionamentos. As pessoas querem viver juntas, mas não abrir mão das suas singularidades, como diz Baumam, as relações líquido-modernas existem, mas é até ‘segunda ordem’ e não mais ‘até que a morte nos separe’”, argumenta.  
O historiador destaca ainda que houveram de fato mudanças nas relações, mas, segundo ele, apontar o motivo ou motivos dessas mudanças é um tanto arriscado. “O que mudou foi o modo das pessoas se relacionarem consigo mesmas, com os outros e com a sociedade de modo geral. Vivemos num período de profunda experimentação pessoal”, defende. 
No entanto, Enoque ressalta que a cultura de massa influência e muito nas relações. “Existe essa interferência quando essa cultura pinta um mundo do gozo e do prazer, ou seja, a maior parte do tempo. Nesse mundo colorido dos comerciais, novelas e filmes, as pessoas comuns tendem a seguir o modelo em seu cotidiano. Edgar Morin a partir de Freud, denomina isso de identificação. De modo resumido e não geral, há uma tendência muito grande de as pessoas trazerem do mundo midiático, dos ecrãs, personagens que só existem nas telas. A sociedade de massa atrelada ao universo midiático potencializa a possibilidade de o outro ser visto como um objeto de prazer. Sobre o amor, usando mais uma vez Bauman como referência, também se torna líquido”, exemplifica. 
Ao ser questionado sobre como as relações poderão ser duradouras neste modelo de sociedade, ele complementa: “As pessoas continuam e continuarão amando. O amor, a paixão e o desejo de estar junto sempre existirão. Quando isso deixar de acontecer a humanidade realmente corre sério perigo. O que devemos compreender ou tentar, é que em grande medida existe uma miríade de possibilidades relacionais que noutros tempos era sufocada ou impossibilitada por diversos motivos. Um exemplo: em tempos idos casar era quase como uma obrigação moral e social. A “solteirona” e o “solteirão” eram apelidos pejorativos como o “ficar pra titia”. Hoje, não mais. As pessoas casam se quiserem, e ao se casarem não há mais nada que impeça o desenlace”, finaliza. 
Fonte: Claudia Weinman

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