Geral
09/10/2015 16:49 (atualizado em 31/12/1969 21:00)

A terra e o Jornalismo da Pachamama

Cuidar da terra. Defender a vida. Será tão difícil? O ser humano acostumou-se a comer tudo que dela sai, mas não pensou em cuidar como os povos originários o faziam. Nesta semana, lendo algumas notícias, me deparei com a ocupação feita na sede de DuPont Pioneer, no município de Catalão (GO). Camponeses e camponesas movidosas pela concepção de dignidade, soberania alimentar, espalharam-se pelo local, denunciaram a ação das transnacionais, questionaram o uso continuo, agressivo e avassalador dos pacotes verdes e levantaram faixas em nome da produção de sementes crioulas. 
A mesma notícia, circulou por diversos canais. Palavras de acusação, de repúdio aos que se levantaram e foram denunciar o veneno. Notícias que brotam de um jornalismo sem consciência de classe e que se forja aos moldes dos monopólios e esbanja desgraça, preconceito a diversidade, que é explorado mas que explora com suas palavras que sangram. 
Falar da terra para os comunicadores das marginais vai muito além do que foi constituído a partir da colonização europeia. Falar da terra envolve pensar na poeira que se levanta e remete ao passado ‘negro’, escravo. Faz voltar aos indígenas jogados em valas, como os ninguéns em busca do nada. ‘Do nada’ interessante ao mercado forjado pelos rumos da sociedade também transformada pelas forças do capital.  Estar na terra, pisar, sentir o chão de onde brota nossos alimentos segue a linha imaterial das coisas, transcende o pensamento. “Com o passar dos séculos, muito pouco mudou. Os latifundiários só não são mais portugueses. Têm a cara do Brasil mestiço e muitos até falam inglês. E, como naqueles tempos idos, hoje também a resistência. Quem trabalha na terra e dela tira seus frutos quer a sua posse. Por direito. Terra é para agricultor, para gerar comida e não para especulação. Terra não é mercadoria. É vida. Gaia. Pachamama, mãe”. –Elaine Tavares dizia em seu livro intitulado: “Porque é preciso romper as cercas”. 
No livro, ela faz uma recordação da cobertura Jornalística da ocupação da Fazenda Annoni, na estrada que liga Passo Fundo a Ronda Alta no Rio Grande do Sul. Ao reler esta obra, me faço pensar na fundamental importância do Jornalismo de estrada, este comprometido com a causa das gentes, denunciador e anunciador de esperança, que se agarra nas cercas e percebe, sem deixar passar, as vozes que precisam ser ouvidas. Mas e a terra? O que tem de similar ao Jornalismo de estrada? A história contada sobre o olhar para a terra e quem nela produz sementes de vida não é qualquer olhar. Ele tem classe social, assume postura. 
Ao assumir o lado da classe trabalhadora, as palavras também penduram-se no passado para falar do presente e o mais importante, não anda só, como a própria Elaine nos ensinou ao falar de: “Jornalismo Libertador, este que nasce no Sendero da Filosofia de Libertação. Uma filosofia que caminha com o outro, distinto, e que vê o mundo com os olhos do amor e da beleza, Jornalismo companheiro, que caminha junto, que come o mesmo pão, que se enlameia no mundo real. Novo Jornalismo, jornalismo novo, compromisso, libertação. Momento de tomar partido e conhecer a beleza. Morangos no abismo, como em Rubem Alves”.
Nos enche os olhos de esperança. Terras sendo ocupadas, povo se organizando, organizações que passo a passo tem avançado mesmo enfrentando as inúmeras problemáticas. Cada diferente tem sua história que vai se unindo a outras. Falar da terra e do Jornalismo enraizado na luta, são dois pontos fundamentais para a transformação. A Comunicação voltada a base, no cerne do povo, que tenta libertar sem sentir ‘dó’, ela perpassa câmeras, perpassa estética, pois une-se aos povos e a partir deles, aponta novos capítulos, novas imagens, esperança. 
“Quê? Sou eu quem planta, sou eu quem trabalha...E lembrava de como tinha entrado nesta briga: Foi através da igreja, né? A gente ia pros grupos de reflexão. A gente lia então sobre o povo oprimido no Egito e a caminhada que eles fizeram com Moisés em busca da terra prometida. É assim que a gente tá, caminhando em busca da terra que é nossa. Eu ouvia e aprendia” -Elaine Tavares. 
Ao caminhar de mãos dadas com minha mãe e meu pai, nas Santas Missões Populares que se fazia há alguns anos, também passei a ouvir e aprender que a terra é da gente, é do povo que trabalha e só tem direito a ela, quem dela cuida, quem nela vive, quem faz brotar a semente que alimenta o corpo, mas principalmente, que dá sustento ao pensar e o germinar de consciência. As Santas Missões serviram de primeiro passo para a descoberta do desafio maior, aquele que todos e todas precisam ainda fazer parte. Até a próxima. 


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