Geral
04/12/2015 15:13 (atualizado em 31/12/1969 21:00)

As dores, simplesmente não as queremos mais

O ser humano tem vestido-se pouco de esperança, de humildade. Muita riqueza valorizada, pouca doação com a vida dos outros e outras. Muita exploração, pouca punição aos corruptos do país. Chega essa época, a memória perturba-me. Passo a recordar do que ainda me dói no coração. Todo mundo quer ter uma vida feliz, quer comemorar as conquistas, quer falar da sua vida, contemplar o sol com um sorriso, mas, as vezes, esses desejos são limitados pelo egoísmo de quem se acha dono da gente e de tudo que está alicerçado no Brasil. 
Lembrei-me de um final de ano, em que fui convidada para jantar na casa onde trabalhava como empregada doméstica. O convite chegou-me como novidade, alegria, satisfação, já que, não era comum fazermos alguma coisa em família durante a noite nessas datas. Meus pais sempre dormiam cedo e a gente acabava dormindo também. Mas naquela noite, parecia especial. Vesti a melhor roupa que tinha, usei um batom de leve, e feliz, me dirigi até o local da festa. 
A ingenuidade é mesmo um perigo. Quem dera pudesse visionar o futuro. Ao chegar na casa, sujei minha roupa servindo a mesa do jantar, enquanto degustavam da boa comida, tinha que me levantar para buscar na cozinha o que ainda estava faltando. Depois de atender a criança, recolhi os pratos, arrumei de novo a mesa, lavei a louça, e cansada, pedi para ir embora. O convite não era para festejo, era para que a empregada trabalhasse de graça, em uma noite de festa, enquanto os demais alimentavam-se tranquilos, sem sujar suas roupas, sem que precisassem fazer esforço. Noite de festa era para ‘os outros’, não para a doméstica. Fui para casa, triste. Os anos passaram-se e eu recordava de todas as vezes em que minha mão de obra foi vendida por ‘migalhisse’, a mais-valia, os dava o direito de me explorarem em qualquer ocasião. 
Tantas foram as vezes que passei vontade de comer enquanto a dona da casa escondia-se no quarto para devorar, de uma só vez, o que a gente tinha cai lá uma vez por ano. Tudo isso me atormentava a mente. A humilhação não parava por aí. A doméstica, que era eu, dividia a sala de aula, no primeiro ano da faculdade com pessoas que não precisavam pagar a mensalidade do curso. “Quem te deu o direito de estudar Jornalismo moça! Volta para faxina!”, isso talvez resuma um pouco. Mas o que me incomodou mais nesses tempos e me perturba demasiadamente, é que essa é apenas uma história de humilhação, da sobreposição do lucro, da desumanização de pessoas que de fato, querem ser donos da gente, querem que trabalhemos excessivamente até que nossas forças estejam esvaídas. 
São tantas as histórias em que o trabalhadora é submetidoa a condições de exaustão. Em que é convidado para uma festa não para ser feliz nela, mas para servir, mais uma vez, o seu patrão. Quando Marx nos diz que a história da sociedade é a história da luta de classes, aí está o exemplo. O dinheiro cega grande parte dos seres humanos. Cega tanto, que os coloca em dívidas, que o faz escravo, que os domina. Meu companheiro citava o exemplo dos trabalhadores que até hoje, passam a vida pagando o automóvel que compraram para trabalhar, os patrões pagando as dívidas de suas festas luxuosas. O que fazer para que essa história não repita-se mais? Para que o estado não seja o estado da classe dominante? Para que os povos não tenham que engolir a lama das riquezas que nos ‘valem’ tanto? Para que o suspiro de liberdade não seja apenas de alguns segundos?
Vistam-se. Nas palavras, nas ações, na postura política e militante da vida. Eu cansei de estar ali, servindo a todosas, enquanto alimentavam-se. Senti muita sede e hoje sinto mais, coletivamente. Nosso ‘partido’ é a vida, sobre todas as formas impositivas de lucro.  Enquanto as lágrimas e as dores existirem, nada estará bom o suficiente. Por isso, lutamos. Nos bastam as ‘reformas’ das nossas dores, simplesmente não as queremos mais. Hasta! 

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