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29/09/2017 09:39 (atualizado em 02/10/2017 08:57)

“O suicídio não tem ‘aviso prévio’, e quando vemos, só resta dor e saudade” SUICÍDIO Moacir e Maria Bortolanza perderam seu filho, Djhoni, há mais de um ano. Segundo Bruna Bortolanza, irmã de Djhoni, o incidente ocorreu proveniente de sua doença: o transtorno bipolar

Um olhar atento sobre um tema ainda pouco comentado acende o alerta sobre um problema que cresce anualmente e que, cada vez mais, atinge os jovens e adolescentes. O movimento chamado Setembro Amarelo, mês de combate ao suicídio, reflete a importância da conscientização a respeito do assunto. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2015, mais de 780 mil pessoas morreram por suicídio, o que representa cerca de 1,5% de todas as mortes do mundo. Entre os jovens, de 15 a 29 anos, o suicídio foi a segunda maior causa de morte no mesmo ano. 
Os sintomas de alguém que pensa em cometer suicídio podem estar ligados à problemas psicológicos não tratados
Na frase do médico psiquiatra, professor e escritor, Augusto Cury, define o suicídio: “Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer, desesperadamente, matar a sua dor, mas, nunca, acabar com sua vida”. Na opinião da psicóloga do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Palmitos, Andreia Dietrich, o trabalho de prevenção sobre o suicídio ocorre por meio da fala, discussões sobre o assunto, na orientação pela busca de ajuda com profissionais da área. Mas para isso, Andreia menciona que tem que deixar de lado o preconceito, mas melhorar a autoestima da pessoa, oportunizar um bom suporte familiar, como também, bons laços sociais. “Muitas vezes a falta de capacidade de lidar com suas dificuldades, faz com que o desespero seja maior do que a vontade de continuar vivendo. Estas pessoas têm muito medo de buscar ajuda, apesar de darem sinais que não estão bem. Mas aí já vem um outro detalhe importante, o fato das pessoas acreditarem que estes sinais são apenas para chamar a atenção, mas que na realidade é um pedido de ajuda”, completa.
A psicóloga do Caps de Palmitos define o suicídio como um mal cometido pela pessoa que está vivenciando algum tipo de sofrimento físico, psicológico, social. Ou até mesmo experiências traumáticas, como perda de trabalho ou pessoas muito próximas, relacionamentos frustrados, com o qual sente extrema dificuldade de lidar e de estar pedindo ajuda das pessoas que estão ao seu redor. “Estas pessoas não conseguem ver nenhuma outra possibilidade de melhora”, menciona.
Segundo ela, os sintomas de alguém que pensa em cometer suicídio podem estar ligados à problemas psicológicos não tratados, como também relacionados a questões social. Andreia destaca que existem vários sintomas, e cita os principais, que são: tristeza intensa e durante vários dias; falta de interesse e planos para o futuro; falar frases como “você estaria melhor sem mim” ou “talvez eu devesse sumir”; tentativas previas de suicídio; doação de objetos de valor inexplicável; isolamento; e automutilação.

Suicídio entre jovens
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) a maior incidência de suicídio ocorre na fase da adolescência e adultos jovens, isso entre os 15 a 29 anos, como também com pessoas com idade superior a 70 anos, “estes por sentirem-se muito só”, afirma Andreia. 
A psicóloga revela que os adolescentes e adultos jovens, do sexo masculino tem uma maior incidência de tentativas e concretização do ato. Situações ligas ao preconceito de buscar ajuda, como dificuldades de relacionamentos, bullying, envolvimento com drogas e bebidas, falta de emprego e questões relacionadas a sexualidade. “A pessoas tem que deixar de lado o medo e o preconceito e, falar, pedir ajuda, para poder melhorar e seguir a vida de uma forma saudável. Como também buscar melhorar a qualidade de vida, realizando atividades de que lhe causem prazer”, declara.


Tecnologia, Mídia e Redes Sociais
As facilidades tecnológicas acabam expondo com facilidade a vida íntima de jovens e adolescentes, principalmente. A psicóloga ressalta os cuidados que os usuários dessas ferramentas de interação, como redes sociais e salas de bate-papo precisam ter. “Na verdade, deve-se ter um olhar mais próximo dos pais, ou pessoas próximas, pois muitas vezes os jovens acabam vivendo no mundo das tecnologias e deixa de lado a convivência real com as pessoas, não existindo mais o diálogo, que é algo fundamental, para as pessoas que estão passando por alguma dificuldade emocional, financeira ou até mesmo de relacionamento”, enfatiza.
No meio jornalístico, Andreia não vê problema em noticiar o suicídio, porém eu ela seja feita com linguagem positiva. “Os meios de comunicação devem mostrar que existe a possibilidades de melhorar o seu quadro de sofrimento, ofertando assim o tratamento através deste. Porém, não divulgar e incentivar as formas de cometer suicídio”, alerta.

Como ajudar?
Juliana Perizzolo, médica psiquiatra e cooperada da Unimed Chapecó
Na psiquiatria, existem os chamados fatores de risco para o suicídio, que estão relacionados à propensão a tentar ou cometer o ato de tirar a própria vida. Quem explica é a médica psiquiatra e cooperada da Unimed Chapecó, Juliana Perizzolo. “A família deve estar atenta às mudanças de comportamento do paciente e solicitar avaliação com psiquiatra quando existe alteração. Geralmente, a pessoa que tenta ou comete suicídio deixa "pistas" de que algo não está bem ou que pode estar em risco, como por exemplo, deixar cartas de despedida ou falar que nada mais importa”, alerta a médica.
A psiquiatra afirma que a abordagem de uma pessoa com risco de suicídio sempre é complexa e exige escuta atenta e percepção delicada da situação que o paciente possa estar passando. Em geral, segundo ela, há uma percepção distorcida da pessoa que apresenta risco de suicídio, que pensa não ter mais saída para seus problemas, associada a uma rigidez do pensamento. “Isso pode ser assinalado ao paciente de forma a mostrar que seus pensamentos e percepções podem estar alterados em função de circunstâncias ou de algum transtorno mental, como a depressão, e que sempre há possibilidade de tratamento e auxílio”, destaca ao enfatizar que, com o tratamento adequado, existe uma grande possibilidade de mudança do pensamento em direção à percepção de que podem, sim, existir várias saídas para determinadas situações e que basta estar melhor para pode enxergá-las. 

Uma dor que não tem fim
  “Falar em suicídio sempre remete a dor, sobretudo quando acontece com um ente querido, com alguém próximo a você”. Com essa frase que a família Bortolanza de Palmitos inicia a entrevista para o Jornal Expresso d’Oeste. Moacir e Maria Bortolanza perderam seu filho, Djhoni, há mais de um ano. Segundo Bruna Bortolanza, irmã de Djhoni, o incidente ocorreu proveniente de sua doença: o transtorno bipolar. “Ele dizia várias vezes que seu lugar não era entre nós, preferindo a morte. Nós, família, fizemos o possível e impossível para tentar tirar dele esse pensamento; esse querer, e, embora tenhamos evitado muitas outras vezes, infelizmente, na última não foi possível”, conta.
Moacir e Maria Bortolanza perderam seu filho, Djhoni, há mais de um ano
Bruna relata que no início, a dor do “não pude fazer nada para impedir', é a que mais perturba a família. “Depois, porém, entendemos que tudo o que estava ao nosso alcance, fizemos, o que nos ‘tranquiliza’”, declara a irmã, ressaltando que todos passam por momentos delicados, “e que às vezes temos vontade de ‘largar tudo’, e provavelmente seja isso que se passa na cabeça de um suicida”, acredita. 
Esses momentos delicados, para Bruna, na maioria das vezes, estão ligados a motivos que podem ser buscado superar, preferivelmente com a ajuda de um profissional, para que não chegue ao extremo (suicídio). Aliado a isso, Bruna acrescenta que deve-se descartar comentários e opiniões alheias, que são leigas. “Geralmente dizem que é “frescura” sentir-se mal ou precisar de um psicólogo, por exemplo, mas na verdade ninguém sabe o que se passa dentro da mente de cada um. Vale alertar, que grande parte das pessoas considera verdadeiro aquele ditado de que: “quem fala não faz”, e nosso caso deixa explícito que isso não procede”, reconhece.  
Grande parte das pessoas considera verdadeiro aquele ditado de que: “quem fala não faz”, e nosso caso deixa explícito que isso não procede – Bruna Bortolanza 
Djhoni e Bruna Bortolanza 
Bruna deixa um conselho diante de tudo o que aconteceu e da dor que ainda sentem, é que primeiramente: “se você enfrenta qualquer tipo de problema, busque resolvê-lo e não adiá-lo, por menor que seja, para que não tome grandes proporções, além disso, deve haver a participação da família, que deve atentar-se mais aos seus, a todo e qualquer sinal, para que busquem ajuda o quanto antes, porque o suicídio não tem ‘aviso prévio’, e quando vemos, só resta dor e saudade”, finaliza.  
Em sua rede social, Bruna postou uma foto com o irmão descrevendo: 
Hoje é dia 07 de agosto e completamos um ano sem tua presença física, Djhoni. Não houve um dentre esses 365 dias que não tenhamos lembrado e sentido tua falta. Há exatamente um ano atrás recebíamos a triste notícia de que os médicos da terra já não podiam fazer nada a fim de salvar-te, e então decidimos, neste dia, proporcionar vida à outras pessoas através da doação dos teus órgãos. Admitimos que não foi uma decisão fácil, mas hoje sentimo-nos felizes por saber que partes de ti tenham ajudado outras pessoas. Agradecemos por tudo o que construiu e nos deixou. Embora tenha tido várias dificuldades durante tua passagem por essa encarnação, sabemos que evoluíste bastante, e hoje só pedimos para que esteja em paz e aguardamos o dia do reencontro. Com amor, de sua família.






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Fonte: Jornal Expresso d'Oeste

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