Especial
01/12/2017 11:07 (atualizado em 01/12/2017 11:10)

Doula, a mão amiga na hora do parto PARTO HUMANIZADO A palavra Doula vem do grego e significa “mulher que serve”, e conforme a doula Katia Venesiano, são elas que intermediam, no momento do trabalho de parto, entre a família e o médico

Jornal Expresso d’Oeste / Katia Venesiano atua como doula há sete anos
“É uma relação de afetividade muito mais íntima, aquela história que se dizia antigamente dos pais serem ausentes, a partir desse momento automaticamente um pai começa a se apaixonar por ser pai”. É assim que a doula Katia Venesiano relata o benefício do parto humanizado para as famílias. Katia, trabalha como doula há sete anos, e descreve para a reportagem do Jornal as energias e sensações que os casais tem ao optar pelo parto normal com o acompanhamento de uma doula.
Ela relata que um dos motivos que leva algumas mulheres a optarem por parto humanizado é o medo do nascimento. “O que leva hoje as mulheres buscarem o nascimento de seus filhos de uma forma mais humanizada é exatamente o medo, que toda mulher tem, do momento do parto. É o estigma da dor do parir. Em alguns países já se praticam há muito tempo o parto humanizado, antigamente existiam as parteiras, hoje, com as tecnologias dentro do campo hospitalar se criou uma série de procedimentos e protocolos para facilitar essa experiência, que é o estigma da dor”, declara.
         Katia aponta que atualmente as mulheres estão procurando por alternativas. “As pessoas quando vão ao campo hospitalar chegam doentes, e o nascimento de bebês não é uma doença. A sensação que é transpassada é que tem algo errado nisso. As mulheres acabam ficando muito assustadas quando engravidam e quando está chegando a hora do parto começa aquele pensamento que pode dar algum problema e que talvez precise de uma cesariana”, comenta.
         A profissional afirma que o Brasil é um dos recordistas mundiais de cesarianas. Ela explica que a Associação Nacional de Saúde, preconiza no máximo 20% de cesariana ao ano, enquanto o Brasil realiza 74% cesárias ao ano.  “Ou seja, 74% dos bebês nascem por cirurgia”, alerta Katia, ressaltando que existe uma lei, desde 2006, que possibilita a escolha do parto normal. “Esse documento, denominado Plano de Parto, é assinado pela família – pai e mãe do bebê”, afirma.
Empoderamento familiar
Ilustração / Durante a gravidez a mulher se prepara emocionalmente para não ficar com medo do parto
          Para Kátia, as mulheres estão buscando através de autoconhecimento, se entender como mulheres e capazes de gerar um filho, e é neste sentindo que entra o papel da doula. Ela menciona, que além do autoconhecimento, entra outro movimento que é o momento do nascimento de um bebê em família. “Antigamente a mulher era objeto, bebê era o sujeito, e o pai o expectador. Hoje são três protagonistas, o pai, a mãe e o bebê que vai nascer. O homem participa do nascimento desse bebê e isso empodera essa família”, declara.
         O empoderamento familiar não se fortalece somente no momento do nascimento. Katia explica que a família – mãe, pai e bebê, criam um laço maior quando optam pelo plano de parto. “Hoje no plano de parto, a família escolhe tudo o que se quer. Se quiser fazer depilação pubiana, se quer ganhar o bebê na banheira, se vai querer cesariana, ou corte Episiotomia (às vezes não precisa)”, declara.
         Durante a gravidez a mulher se prepara emocionalmente para não ficar com medo do parto. “O parto se torna difícil se tiver uma intercorrência, situação real, de risco para o bebê e para a mãe. Aí sim o encaminhamento é feito para a cirurgia”, alerta a doula.
“A grande amiga”
Ilustração / “Como uma grande amiga, que faz massagem, que conversa, que olha nos olhos, que tranquiliza”
“Como uma grande amiga, que faz massagem, que conversa, que olha nos olhos, que tranquiliza”. É com essas características que Katia define o papel de uma doula. Segundo a profissional, a mulher pode optar pelo acompanhamento de uma doula desde o início da gravidez. “Quando somos solicitadas, passamos a fazer parte da vida dessa nova mãe, acompanhamos nas consultas médicas, estamos por perto em todos os momentos, criamos um vínculo com a família”, declara.
A palavra Doula, vem do grego e significa “mulher que serve”, e conforme Katia, a doula vai intermediar, no momento do trabalho de parto, a família e o médico. Seu papel é oferecer conforto, encorajamento, tranquilidade, suporte emocional, físico e informativo durante o período de intensas transformações que a mulher está vivenciando. “A doula vai fazer massagem nas costas da mulher para facilitar a dilatação, vai fazer movimentos numa bola ou dançar. Pois, a mulher estando calma, o parto é rápido. É o estado emocional que determina as camadas musculares do útero. Então, se ela quer uma dilatação, precisa estar tranquila. E essa tranquilidade é propiciada com a presença da doula, que é uma grande amiga”, declara.
Katia explica que a doula auxilia no momento do parto, mas não o executa. “Geralmente a doula se dá muito bem com o médico, por que ela não interfere no parto, ela apenas acompanha e facilita o trabalho dele. A doula está naquele momento em que o médico não está. Quando o médico inicia o trabalho de parto, a paciente está mais tranquila e está pronta para o procedimento”, afirma.
O ambiente materno
Ilustração / Katia, menciona que o momento do nascimento é um rito de passagem e não o momento do nascimento, pois a criança ficou nove meses, com uma vida, dentro de um corpo materno
  Katia, que também é terapeuta reikiana, menciona que o momento do nascimento é um rito de passagem e não o momento do nascimento, pois a criança ficou nove meses, com uma vida, dentro de um corpo materno. “Aquele momento do nascimento vai determinar a sua saúde emocional neste mundo, por isso que optei por prevenção, do que só tratar as sequelas dos traumas de nascimento”, declara.
         Ela aconselha, no primeiro momento da gravidez, a mulher conhecer seu corpo, manter a calma para o bebê nascer tranquilamente. “O ambiente materno é necessário, a primeira experiência que temos é estar dentro corpo materno, se esse corpo materno estiver preparado pode ser uma vida calma e tranquila. E procurar uma doula de confiança, que sinta confiança”, afirma Katia, ressaltando que neste processo precisa ser trabalhado o fato da mulher mamífera. “Somos fêmeas, viemos a esse mundo com essa natureza biológica, eu não posso parir sozinha, mas com assistência necessária, ou seja sempre ter uma equipe médica em algumas situações que represente para tal devido apoio. Mas, é importante entender que o nascimento entre si é biologicamente natural”, enfatiza.
Parto humanizado
         Katia explica que o parto humanizado por ser feito em determinados lugares, como: dentro de uma banheira, em cima de um banquinho, no chão ou de joelho. “Desde que naquela hora, aquela posição e lugar sejam o ideal para você, e enquanto mulher parindo que vai determinar o que é melhor.  Esse é o respeito e a diferença do parto humanizado”, afirma. 
         Sobre dor, Katia menciona que a dor do parto normal não existe após o nascimento do bebê, além disso não deixa sequelas na mãe. O trabalho de parto completo pode durar de três horas, 12, 24, ou 48 horas, e pode se tornar difícil por que é cansativo para a mulher, ficar tanto tempo sentindo contrações. “Porque se torna partos muito longos, por que a mãe está com medo, por que essa mulher não está segura, quando ela está segura o nenê nasce rápido. O parto normal tem dores no trabalho de parto em si. Mas no momento que o bebê sai de dentro do útero essas dores cessam, e aí é só felicidade”, ressalta.
Já durante uma cesariana, Katia explica que tem durante o trabalho de parto, o campo cirúrgico, anestesia, recuperação pós-parto mais longo, trauma físico e os riscos de uma infeção hospitalar. “Por isso que a Organização Mundial da Saúde, solicita que só se faça uma intervenção cirúrgica como uma cesariana e casos reais de necessidades, não como um conforto da equipe médica ou por solicitação da mãe que tem esse direito”, alega.
O resgate
Nos sete anos de atuação como doula, Katia recorda de vários nascimentos, porém, um em específico. Ela conta que acompanhou o nascimento de um menino em Porto Alegre que a marcou muito. “O parto foi no hospital, mas durante o processo o casal não estava bem, inclusive durante a gravidez estavam a ponto de se separar. E no momento do nascimento do filho houve uma reaproximação profunda. O pai sentou em uma cadeira e se propôs em ajudar no nascimento do filho. E eu dei o maior apoio, pedi para relaxar e receber essa mulher que neste momento é a nave para o seu filho chegar. E ele abraçou essa mulher e veio uma contração muito forte, e pedi para sentar no colo do homem. Quando sentou no colo, foi solicitado para separar as pernas e quando isso aconteceu o bebê nasceu. Foi um resgaste de uma família”, recorda emocionada.
Lei que garante o direito a presença de doulas nos hospitais é aprovada
Arquivo Pessoal / Diretora Administrativa do Hospital Regional de Palmitos (HRP), Cíntia Steffens
  A Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) aprovou na terça-feira, dia 17 de outubro, o projeto de lei que determina cobrança de multa para hospitais e maternidades que descumprirem a lei que garante o direito a presença de doulas nesses estabelecimentos de saúde durante o parto.
De autoria dos deputados Cesar Valduga (PCdoB) e Darci de Matos (PSD), o projeto estabelece sanções e penalidades que vão desde advertências e a instalação de sindicância administrativa, até multas entre R$ 2 mil e R$ 40 mil.
A decisão aconteceu por unanimidade de votos, seguindo o relatório favorável do deputado Manoel Mota (PMDB) à matéria, com a manutenção da emenda substitutiva global, de teor redacional, aprovada no âmbito da Comissão de Constituição e Justiça. “A alteração protege e dá mais segurança ao direito da família e à mulher em poder contar com a presença de doulas em seus partos, já que os estabelecimentos que não respeitarem isso estarão sujeitos à penalidade pecuniária”, ressaltou o parlamentar em seu parecer.
          A diretora Administrativa do Hospital Regional de Palmitos (HRP), Cíntia Steffens, declara que o HRP admitiu a presença de doulas no trabalho de parto, no parto e pós parto de gestantes, antes da publicação da Lei 16.869/2016, atualmente regulamentada. “O HRP sempre foi favorável a toda e qualquer prática que objetive a melhoria da qualidade no atendimento ao paciente, especialmente em situações de fragilidade, não apenas das doulas para gestantes, mas também outras práticas complementares como: aplicação de Reiki em pacientes em tratamentos prolongados; admissão de animais de estimação (liberados pela Vigilância Sanitária) na Ala Psiquiátrica; apresentação de palhaços e cantores aos pacientes internados; e visitas espirituais de acordo com o credo de cada paciente. Em todas estas práticas, respeita-se a vontade e condição do interno. Nenhuma alternativa é barrada se vier em benefício da saúde das pessoas que buscam atendimento no HRP. No entanto, a admissão das pessoas que a executam é submetida a critérios e normas internas a fim de garantir a satisfação, bem estar e segurança do paciente”, afirma.
         Cíntia menciona que a Lei determina a permissão de doulas nos hospitais e maternidades, não a contratação por estas entidades, o que representaria um acréscimo considerável aos custos que o serviço de obstetrícia do hospital já absorve. “A exemplo de outros hospitais do Estado, que manifestaram opinião a respeito, a preocupação do HRP também está na profissionalização e regulamentação deste serviço, a fim de admitir-se pessoas tecnicamente capacitadas e sem representação de vínculo empregatício com a entidade.  O Art. 3º do Decreto 1305 de 19/09/2017 que regulamenta a Lei 16.869/2016, prevê em seu § 1º que "A entrada das doulas nos estabelecimentos de saúde independe de o serviço prestado ser voluntário ou remunerado." Sendo assim, poderá ser aplicado um Termo de Voluntariado para as doulas que desejarem prestar este atendimento de forma voluntária às pacientes SUS, sem ônus, conforme o convênio prevê. Ou ainda, as doulas poderão ser contratadas por pacientes optantes dos convênios particulares”, afirma.
         Segundo ela, o HRP continuará admitindo o ingresso de doulas no acompanhamento as gestantes, mediante cadastramento prévio das pessoas interessadas em prestar este atendimento, munidas de documentos que comprovem a capacitação e registro junto aos órgãos competentes. “A exemplo do que aconteceu anteriormente em acompanhamentos de doulas, deverá ser apresentada a equipe técnica, a estrutura e as normas da entidade para a correta execução da atividade. Salientamos a total aprovação dos médicos Obstetras do HRP na admissão de doulas. Serão atendidos os dispostos da Lei, assegurando acima de tudo, a integridade do paciente, especialmente no que tange o Artigo 4º em que “Fica vedada às doulas a realização de procedimentos médicos ou clínicos, bem como procedimentos de enfermagem e de enfermagem obstétrica”, finaliza.


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Fonte: Jornal Expresso d'Oeste

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