Ciência
17/07/2012 13:53

Combate ao HIV: infectologista alerta que medicamento pode passar falsa sensação de segurança Pílula liberada pelos EUA ajuda na prevenção do vírus da Aids, mas não substitui métodos tradicionais como o uso de preservativos

Uma pílula usada no tratamento de pessoas com HIV foi liberada na segunda-feira nos Estados Unidos para a prevenção ao vírus. É a primeira vez que um remédio é aprovado para esse fim. A Agência de Alimentos e Medicamentos (FDA) norte-americana autorizou a utilização do Truvada apenas por pessoas com risco elevado de contrair o HIV, como cônjuges de soropositivos.

Produzido pelo laboratório Gilead, o remédio está disponível no mercado dos EUA desde 2004, usado em combinação com outros antirretrovirais no tratamento de soropositivos. 

— O Truvada representa uma abordagem efetiva e comprovada, que pode ser somada a outros métodos para ajudar a reduzir a propagação do HIV — afirmou Debra Birnkrant, diretora da divisão de antivirais da FDA.

Apesar da liberação, a agência ressaltou que o remédio deve ser usado como “parte de uma estratégia abrangente para a prevenção contra o HIV, que inclui outros métodos, como prática de sexo seguro, orientação para a redução de risco e testes regulares de HIV”. Um impeditivo extra para a utilização do medicamento é o custo, estimado em US$ 14 mil ao ano. 

Desde 2010, testes revelam que o Truvada pode reduzir o risco de infecção. Estudo com 2.499 homens homossexuais apontou que o uso diminuiu entre 44% e 73% o risco.

Um segundo estudo, com 4.758 casais heterossexuais, em que um parceiro estava infectado e outro não, mostrou que o remédio diminuiu em 75% a contaminação. Mas o Truvada está longe de ser uma vacina. Não tem 100% de eficácia e deve ser ingerido diariamente. 

No Brasil, a medicação obteve registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em maio, para tratamento, mas o Ministério da Saúde diz que não mudará a estratégia de prevenção à doença no país.

Ronaldo Hallal, coordenador de cuidado e qualidade do programa de DST/Aids do órgão, afirma que o tema foi discutido recentemente e que a decisão foi manter a política brasileira como está, com foco no incentivo ao sexo protegido, no diagnóstico e no tratamento:

— Os estudos demonstram que, se a pessoa doente for tratada corretamente, há uma redução de até 95% na transmissão do vírus. Esse é um resultado mais eficaz do que os alcançados com a profilaxia pré-exposição. Estamos falando de resultados em estudos controlados, em que as pessoas são orientadas e acompanhadas a cada 30 dias. Na vida real, numa política de saúde pública, é totalmente diferente.

“A decisão deve ser questionada”

O infectologista Luciano Goldani, do Hospital de Clínicas, recebeu com reservas a liberação do Truvada nos Estados Unidos. Ele receia que o medicamento passe uma falsa sensação de segurança a quem o utilizar, tendo efeito contrário ao desejado pelas autoridades de saúde.

Zero Hora — A aprovação de um medicamento para prevenção ao HIV representa um momento importante na luta contra a Aids?

Luciano Goldani
 — Não acho que isso tenha algo de fantástico. Do ponto de vista prático, não vai fazer muita diferença. O medicamento não é 100% seguro. A pessoa que o utilizar pode achar que está protegida e relaxar no uso da camisinha. Ou então ela pode, por causa da sensação de segurança, se envolver em mais situações de risco. Os estudos mostram eficácia entre homossexuais, mas nos estudos as pessoas cuidam para tomar a medicação adequadamente. Na vida real é diferente. As pessoas tomam um dia, depois falha. Minha opinião é que pode haver um efeito contrário e aumentar as infecções.

ZH — Nos grupos de maior risco de infecção, ele não seria útil?

Goldani
 — Talvez para casais estáveis, em que um dos dois tem o vírus, o medicamento funcione. Mas até quando a pessoa vai ficar tomando a pílula? Uma das drogas usadas no Truvada, o tenofovir, é muito tóxica para o rim. Se a pessoa for tomar o medicamento sempre, quais vão ser as consequências? Há muitas questões nebulosas. A decisão da FDA deve ser, no mínimo, questionada.

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Fonte: DC

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